Entrevista que José Abrão fez comigo para a matéria “Precisamos falar sobre peitos e quadrinhos”

Dia 17 de fevereiro deste ano, José Abrão me procurou para fazer uma matéria para o Judão, onde ele discutiria a questão das mulheres nos quadrinhos. A matéria saiu no dia 6 de março (http://judao.com.br/precisamos-falar-sobre-peitos/) e segue abaixo a entrevista dele comigo na íntegra. Espero que gostem :D
Oi Cris, primeiramente, muito obrigado por responder estas perguntas. Como disse, minha matéria é sobre o design e a representação das mulheres nas HQs de super-heróis, então quero saber sua opinião pessoal mesmo, se acha que tem alguma coisa errada, exagerada ou que deve mudar, sabe?
Eu que agradeço a lembrança, José. Esse assunto é muito importante e interessante, ainda mais pq tem muita gente que ainda acha que não há nada de errado com a representação da mulher. É um problema de todas as mídias, mas vou tentar me focar nas HQs pra me manter no tema da sua matéria.
Realmente existe muita coisa errada com a representação da mulher nas HQs mainstream (a maioria das revistas independentes foge dessa crítica, ainda mais porque muitos títulos estão sendo publicados por autoras mulheres e autores preocupados em mostrar mais do que beleza física). O mainstream está refém de um padrão bastante restrito de personagens femininas. Elas tem sempre o mesmo rosto, mesmo corpo e, muitas vezes, mesma personalidade, normalmente vazia. Ainda temos muitos outros problemas como, o papel delas nas histórias. Normalmente ficam muito em segundo plano e não interferem de maneira relevante na história a não ser que sejam mortas ou violentadas de maneira brutal para motivar o personagem principal. A desculpa dos editores é dizer que o público foco dessas HQs são homens, pois eles são os maiores consumidores de quadrinhos. Será que isso é verdade? Será que, se isso for verdade, é porque mulheres não se interessam em comprar HQs nas quais não são representadas?
Primeiramente, você gosta do gênero de super-heróis? Em quais revistas do gênero você trabalhou?
Eu amo o gênero super-heróis, apesar de não ler muito. Esse gênero tem espaço pra muita coisa bacana ser trabalhada, porém são poucos os roteiros que me cativam.
Eu já trabalhei com Superman, Batman, Robin, Punisher, e, mais recentemente, X-men.
A Marvel e a DC chegaram a ser chatas com alguma coisa ou você fazia seu trabalho tranquilamente?
Normalmente quem mais me aborrece é a DC. Eles tem um padrão de colorização muito controlado, em um estilo que eu francamente detesto. Eles não me deixam ambientar uniformes, por exemplo, a capa do Superman tem de ser vermelha mesmo que eles esteja em um beco escuro a noite, e o uniforme dele deve ser azul forte mesmo que ele esteja em meio ao fogo. A Vertigo é o contrário. Já a Marvel me deixa mais livre para aplicar o estilo e cores que eu quiser. Eles confiam mais nos talentos do artista e os deixam fazer seu trabalho a sua maneira. Bom, pelo menos essa é a minha experiência com colorização.
O que você acha dos designs das super-heroínas? Não acha que eles se tornaram muito repetitivos? Sabe, peitos grandes e pouca roupa. Você acha que isso devia ou pode mudar?
Realmente, como falei antes, virou um padrão. Eles pegam o mesmo modelo de corpo, esculpem uma roupa que parece pintada na pele e colocam um salto alto (o que mais me irrita nelas é o salto alto, quem coloca salto numa personagem normalmente não tem idéia do sofrimento que é usar um par desses objetos de tortura). Basicamente a única coisa que difere as heroínas uma da outra é o formato do cabelo.
Mudar isso não é nem difícil nem impossível. Várias pessoas já fizeram reinterpretações dos uniformes que resultam em uma estética muito mais interessante:
Você acha que esse design idealizado do corpo das mulheres nesse gênero pode ser algo negativo?
Acho negativo pela falta da criatividade e variedade, mas se formos analisar bem, o que mais incomoda (pelo menos a mim) são as poses sensuais (sempre viradas com a bunda pro leitor, mesmo que isso acarrete em erros grotescos de anatomia) e a irrelevância delas nos roteiros. Se pararmos pra pensar, o problema da representação da mulher começa no ROTEIRO.
Como você acha que está a objetificação da mulher nas HQs atualmente, a coisa melhorou ou continua como era há 20 anos atrás, por exemplo?
Acho que muito pouco mudou. Ainda vejo tudo muito igual, porém algumas coisas andam modificando sim. Na Marvel, por exemplo, ando percebendo uma preocupação maior, a começar com a contratação de roteiristas mulheres, como a Marjorie Liu. A Marvel tem muitas editoras mulheres fantásticas como a Sana Amanat e a Jeanine Scheafer. Elas são maravilhosas e muito preocupadas com o assunto. Outra coisa que percebo é que o público feminino de HQs está começando a manifestar a sua insatisfação. Estão criando grupos de discussão, estão criando HQs independentes, etc.
Não estou sugerindo que somente mulheres sejam capazes de produzir histórias com menos objetificação, mas acho importante elas estarem no meio do processo, pois são elas que vão puxar a orelha do desenhista ou roteirista e falar “isso é sexista”. Porque, convenhamos, muitas vezes nós somos sexistas sem perceber (incluo mulheres nisso).
Pegando por aí, a Gail Simone criou o site Women in Refrigerators em 1999 exatamente pra criticar a forma, agora no enredo, que as mulheres eram tratadas nas HQs, muitas vezes morrendo, apanhando, enfim, sendo usadas como personagens de segunda classe que sempre podiam ser vítimas do acaso. Você acha que isso mudou de lá pra cá? As personagens femininas possuem um espaço maior e uma representatividade melhor hoje?
Eu realmente acho que isso não mudou muito. Ainda tem muita personagem irrelevante nas HQs, muitas tratadas como acessórios. É uma espécie de “vício” que ainda vai demorar a desaparecer. As mulheres estão presas dentro de um clichê.
Você acha que o machismo, por parte das editoras e dos leitores, diminuiu?
Eu realmente acredito (e talvez eu esteja sendo ingênua), que o problema maior é a falta de conhecimento do que é machismo. Muitos desses editores e leitores podem dizer com honestidade que eles não são machistas, mas ao mesmo tempo, o primeiro reflexo deles é dizer que o gênero super-heróis não é coisa de menina. Que mulheres não gostam de ação e coisas explodindo. Eu estou aqui pra dizer que eu sou uma mulher que AMA filmes de ação com explosão e tiros! Cresci vendo Arnold Schwarzenegger, Jean Claude Van Damme, e Sylvester Stallone. Eu adoro esse gênero e o que eu mais queria era ver um filme FODA com uma heroína FODA… mas aí eles fazem Meléctra e Mulher Caco. E esses filmes foram terríveis pq a personagem era mulher, ou pq os roteristas eram incompetentes? Fica o questionamento.
Você disse em uma entrevista, acho que ao Saraiva Conteúdo, que não achava o meio das HQs machista, que não é por isso que existem poucas mulheres neste mercado. O que você acha que é então, seria uma questão de gosto? Ou seria porque as mulheres estão descobrindo este mercado agora?
Por que não existem mais mulheres fazendo HQ? Pq não existem mais mulheres fazendo jiu-jitsu? Pq não existem mais mulheres em qualquer ramo? A verdade é que culturalmente as mulheres são criadas diferente. Todos os desenhos animados que vemos, os brinquedos que ganhamos e as perguntas que nos são feitas tem a ver com namorado, marido, família, filhos, beleza. “Ramo de quadrinhos não é coisa de mulher”, “Engenharia não é coisa de mulher”. Ouvimos isso desde que nascemos, desde antes de formarmos nossa própria opinião sobre as coisas. Claro que vamos acabar sendo programadas mesmo que não quisermos.
Realmente acho que para entrar no mercado de quadrinhos basta ter talento, e, por mais que alguns outros aspectos administrativos das editoras sejam um tanto patriarcais, você vai conseguir fazer parte desse meio sendo mulher ou não. O que acontece é que muitas mulheres não seguem esse rumo por não terem persistido em ler quadrinhos, por não terem visto nesse meio personagens que as representassem depois que elas cresceram demais pra continuar lendo turma da Mônica, por não terem percebido que existe uma oportunidade de trabalho nesse meio. No Brasil já são poucas pessoas, dentre elas, a maioria TALVEZ seja homem (Não tenho certeza dos números). A verdade é que para termos mais mulheres no mercado, precisamos de mais leitoras, e isso não vai acontecer até que elas se vejam representadas nas páginas e no mercado.
E você, durante todos estes anos, nunca teve que ouvir algum comentário cretino de colegas ou leitores?
Com certeza. Normalmente meus colegas de profissão são bastante respeitosos. Honestamente, ainda tenho um certo receio de abordar eles algumas vezes, pois é difícil saber quando uma pessoa está te levando a sério realmente. Muitas vezes eu me policio, pois qualquer batidinha camarada no ombro pode fazer alguém pensar que você está flertando ou coisas do tipo. É um saco, verdade seja dita. Me sinto como se não pudesse ser eu mesma, pois alguém pode confundir minha simpatia com outra coisa.
Os leitores é que são mais ousados. Eles usam a distância conveniente da internet pra falar gracinhas e assediar. Quando isso acontece eu trato logo de ser bem acertiva e política (quando consigo controlar a raiva). O problema é quando as pessoas não são mal educadas. Quando elas, sem malícia alguma, se preocupam em primeiro caracterizar minha aparência pra depois falar do meu trabalho. Nesses casos fica difícil repreender, pois sei que não fazem por mal, mas percebo o quanto a aparência é importante pra eles, se não fosse, por que comentar, certo? Um dos motivos que me levou a parar de postar selfies nas redes sociais.
Você acha que o mercado, por sua vez, está se abrindo mais? O que significou pra você sua indicação ao prêmio Eisner?
Acredito que sim. A verdade é que pra acabar com essa retratação sem graça das mulheres nas HQs, é necessário que a gente reclame menos e produza mais. As editoras da Marvel estão fazendo a parte delas, as leitoras estão cada vez mais preocupadas em pesquisar os números e descobrir pq algumas editoras não fazem questão de aceitar o dinheiro delas, focando seus títulos somente no público masculino, e as criadoras estão cada vez mais preocupadas em mostrar sua perspectiva nas histórias. As meninas do Inverna estão querendo mostrar seus trabalhos, as meninas do ZINE XXX também, as meninas do Lady’s Comics querem discutir e mostrar notícias a respeito, eu também estou trabalhando em projetos com protagonistas femininas, incluindo o meu livrinho Totalmente Subjetivo, que relaciona imagens de personagens femininas de diversas formas relacionando elas a cores, sons, sentimentos. Eu, pessoalmente, não vejo nenhum prejudicado com isso. O que queremos é a queda do clichê e roteiros mais bem trabalhados, não vejo desvantagem.
A indicação ao Eisner com certeza me abriu os olhos. Eu achava que era invisível no mercado, e depois dele vi que não. Foi uma situação que me abriu várias portas. Mesmo não ganhando o prêmio, os editores me perceberam, e graças a indicação consegui colher muitos frutos na profissão.
E, por fim, qual a importância das leitoras para mudar o machismo nas HQs?
A importância das leitoras é fundamental. Elas precisam apoiar as boas criações e criticar as ruins e principalmente, elas não podem desistir de ler quadrinhos. O que mais importa para as editoras não é o homem ou a mulher, o que mais importa são os números. E não podemos deixar os nossos números caírem: http://comicsbeat.com/market-research-says-46-female-comic-fans/

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